Adelina Apresenta: #MãosQueFazem Fotografias, com Ana Mantezi, Salua Ares e Márcio Lauria Filho

A série #MãosQueFazem foi criada pela Adelina para que você possa descobrir um novo jeito de olhar para a produção artesanal e sentir o carinho através das coisas – por meio dos bastidores do gesto criador, conhecendo um pouco mais de quem está por trás dos objetos e obras que você encontra na Adelina Loja.

Hoje vamos conhecer um pouco mais sobre a fotografia contemporânea através da perspectiva de três queridos artistas: Ana Mantezi, Salua Ares e Márcio Lauria Filho.

Susan Sontag em seu livro Sobre Fotografia conta que “Imagens são de fato capazes de usurpar a realidade porque, antes de tudo, uma foto não é apenas uma imagem (como uma pintura é uma imagem), uma interpretação do real; é também um vestígio, algo diretamente decalcado do real, como uma pegada ou uma máscara mortuária. Enquanto uma pintura, mesmo quando se equipara aos padrões fotográficos de semelhança, nunca é mais do que a manifestação de uma interpretação, uma foto nunca é menos do que o registro de uma emanação (ondas de luz refletidas pelos objetos) — um vestígio material de seu tema, de um modo que nenhuma pintura pode ser.” Ao contrário do que parece, a autora não busca diminuir a pintura em relação à fotografia ou vice-versa, mas sim, nos lembrar de uma característica da fotografia que a torna única como manifestação artística: seu caráter residual.

É nesse lugar que operam nossos artistas. À partir do que colhem da realidade, criam obras cujo autor é tão importante quanto a realidade, o acaso. A realidade torna-se, então, a matéria prima desses artistas, e, tão imponente, se curva diante de suas lentes.

MarAquarela, Ana Mantezi

Dessa maneira, Ana Mantezi, nascida em 1985 e formada em fotografia pela Escola Panamericana de Artes, conta que tenta expandir em imagem a leveza que a fotografia a deu. Com grande domínio técnico da operação fotográfica, câmeras, lentes e seus recursos, a artista é capaz de subverte-los e criar paisagens oníricas à partir de paisagens reais.

É através do gesto e do olhar que Ana capta a magia do cotidiano. Suas fotografias nos transportam para dentro de seu universo particular que não faz distinção entre sonho e realidade, solo firme e mar, viagem e lar, presente e futuro.

Ana Mantezi, Mares I da série Trama

Ana é capaz de transformar o tecido natural em trama sensível, aproximando, afastando e viajando com suas lentes, a artista também conta que foi a maternidade que sensibilizou seu olhar e tornou possíveis essas criações. É clara essa influência quando observamos o processo análogo ao da mãe-natureza dos cliques de Ana, que são também criadores de mundo, que respiram, cheios de vida.

Happiness Comes in a Box da série Preenchimentos, Salua Ares

Já Salua Ares, nascida em 1984 e formada em fotografia também pela Escola Panamericana de Artes, utiliza dos resíduos da realidade cristalizados na fotografia para criar narrativas que são ao mesmo tempo criticas e poéticas. Em sua série Preenchimento, Salua se apropria de situações cotidianas e cria representações minimalistas que brincam com a funcionalidade do objeto e seu entorno.

Através de técnicas compositivas e agrupamentos de suas fotografias, Salua humaniza o inanimado e suas obras viram um retrato de comportamentos humanos. Objeto e gente se confundem também na impressão de suas obras, uma vez que a artista faz o uso de fotolivros, polipticos e instalações para trazer ainda mais vida as imagens fotográficas que cria.

À Neruda, Salua Ares

Salua é um excelente exemplo dos caminhos que a fotografia contemporânea segue: adotando todos os tipos de novos suportes, carregada de poética e de conceito, não apenas desprendida de sua funcionalidade representativa mas, mais do que isso, se apropriando de sua representação para subvertê-la a serviço da arte.

Concretude e Ilusão 2, Márcio Lauria Filho

Márcio Lauria Filho, nascido em 1960, estuda fotografia desde 1976. Começou a se dedicar a fotografia digital em 2005, e hoje se posiciona atrás das lentes com um olhar investigativo, absorvendo as proposições surreais da realidade e a elas atribuindo o surrealismo através da captura. Márcio age como um filtro da realidade – ele não a constrói, ela se revela a ele e seus registros são documentações de um olhar poético sobre essas revelações.

Triptico #16, #12 e #15 da série Jogos de Sombra, Márcio Lauria Filho

A fotografia de Marcio é como um trabalho de joalheria: com o olhar atento, afiado e sensível encontra as pedras preciosas escondidas no cotidiano em seu estado natural: brutas. Através das lentes, como ferramentas de ourives, lapida a realidade e transforma o mundano em poesia de 24 quilates.

E não se restringe a captura fotográfica o primor das obras de Márcio. O artista faz questão de acompanhar e escolher os mínimos detalhes que irão compor a fotografia materializada – da tinta, ao papel, passando pela técnica de impressão, tamanho, moldura e finalização – como, por exemplo, em sua série Jogos de Sombra, cujas referências são o teatro de sombra japonês, Márcio escolheu imprimir as fotografias da série em um papel japonês – o papel Washi, feito à partir das fibras do arbusto Kozo – da fábrica Awagami, que tem um brilho perolado e translúcido. Emoldurou-a em vidro duplo – e tornou uma fotografia já fantástica em uma obra única.

Á Espera De Quixotes High-Tech, Marcio Lauria Filho
Sal da Terra, Salua Ares
Sem Título da série Cores da Paraíba, Ana Mantezi

Susan Sontag também diz que “É como se os fotógrafos, em reação a um sentido de realidade cada vez mais esvaziado, procurassem uma transfusão — viajar para novas experiências, revigorar as antigas. Suas atividades ubíquas redundam na mais radical, e mais segura, versão da mobilidade.” – e por isso ao falar das mãos que fazem a fotografia, não estamos falando daqueles que operam a caixa-preta fotográfica ou suas técnicas, marcas de câmeras, lentes, fotômetros e obturadores, e sim de suas realidades transfundidas, que nos proporcionam diferentes percepções de mundo.

E aí, gostou de descobrir mais sobre os processos fotográficos e poéticos desses artistas? Encontre mais obras deles no site da Adelina e descubra tudo que a arte pode te proporcionar!

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